Como foi a participação no Mobilize Fortaleza

Entre os dias 24 e 26 de junho, Fortaleza recebeu a quarta edição do Mobilize, que aconteceu na capital cearense pela cidade  ter recebido o “Sustainable Transport Award” (Prêmio de Transporte Sustentável). A premiação é internacional e Fortaleza foi escolhida em reconhecimento às diversas boas práticas de mobilidade que a cidade tem implementado desde 2014, como “Ruas Completas”, divisão mais equitativa de vias, expansão de infraestrutura cicloviária e das faixas exclusivas para ônibus, priorização de pedestres, dentre outras.

Captura de tela do site do evento.

Pela primeira vez, o Mobilize, que tem custo de inscrição, contou com um evento aberto ao público. A atividade foi no domingo, 23/06, na Unifor, e iniciou-se a apresentação de uma ótima orquestra local. Em seguida, alguns especialistas, estudiosos e técnicos da área fizeram falas de fundamental importância. Nas falas de especialistas vindos do Canadá, Índia e Chile, percebeu-se que os problemas e soluções de mobilidade são muito similares em diversos lugares do mundo. Em resumo, buscam-se cidades menos direcionadas para os carros, e mais para as pessoas.

Na segunda feira, 24/06, se iniciou o evento fechado, no Hotel Gran Mareiro, na Praia do Futuro (que não é fácil para chegar de bicicleta ou de ônibus, Prefeitura de Fortaleza!), com todos os seus participantes. Foram mais de 200 pessoas, de mais de 40 cidades, de 21 países. Uma excelente oportunidade para ouvir especialistas de outros contextos urbanos, ter mais conhecimento do que acontece em outros lugares, e quais os temas que ganham mais relevância junto ao da mobilidade nas cidades. 

Plenária do dia 24/06 – “The Cost of Re-Humanizing Streets”.

Infelizmente, como a Ciclovida ressaltou em outros posts (aqui e aqui, entre outros), o preço para participar era impeditivo para a maioria das pessoas locais, com o ingresso custando mais de R$ 2.300 para participantes do Brasil. Minha participação só foi possível graças ao apoio do Instituto Clima e Sociedade – iCS, ao qual mais uma vez agradeço pela oportunidade! A organização do evento poderia ter alguns ingressos disponíveis para quem atua pela mobilidade na cidade, especialmente os atores da sociedade civil, né? Representantes de movimentos de habitação, altamente impactos com avanços ou retrocessos dos sistemas de mobilidade na cidade, não estavam presentes, assim como atores que lutam pelo transporte coletivo ou por questões ligadas às mudanças climáticas, por exemplo. 

Logo no começo, o prefeito Roberto Cláudio recebeu o troféu, como parte do prêmio dado à cidade de Fortaleza, e as diversas apresentações tiveram início. Tinham algumas plenárias principais para todos os participantes em alguns momentos, e em outros algumas sessões concomitantes, onde cada um escolhia o que mais lhe interessava. 

Além das atividades no hotel, tiveram 3 opções de tours para escolher: a pé, de bicicleta, ou de transporte público, para ver algumas das mudanças que aconteceram na cidade para cada modo. Cada participante poderia escolher 2, para fazer um na segunda e outro na terça. Minhas escolhas foram a pé e de bicicleta, e pude ver algumas das intervenções para pedestres no Centro e Praia de Iracema a pé, além de pedalar pelas infraestruturas cicloviárias e ver os sistemas de bicicletas compartilhadas no trajeto entre a Cidade 2000 e a Praia de Iracema.

No tour a pé, a pedestre é a “rainha da rua”.

Na quarta-feira, terceiro e último dia do evento, tiveram alguns workshops (“oficinas”) mais práticos, com ações ou levantamentos na rua, dando até a oportunidade de participar da pintura de uma nova intervenção de urbanismo tático na cidade, na praia de Iracema. 

Detalhe: tanto na segunda como na terça, tiveram confraternizações bem animadas a noite, com comida, música e cultura regionais.

Participantes dançando quadrilha na confraternização, em frente ao Teatro São José.

Importante destacar que, no meio de tantos discursos alinhados a favor da mobilidade sustentável, a participação do Secretário Nacional de Transporte e Mobilidade Urbana, Jean Pejo, não foi vista com bons olhos por muitos participantes. O secretário elogiou os eminentes leilões de óleo e gás, falou sobre portos, aeroportos, ferrovias, mas não tocou em quase nenhum ponto da mobilidade urbana nas cidades. Ainda afirmou que o nosso governo não possui ideologia…

Além de todas as temáticas e princípios de mobilidade urbana para termos cidades sustentáveis, como as “Cidades para Pessoas”, segurança viária, estratégias de políticas públicas, foi muito interessante ver  outros temas diretamente relacionados serem abordados: mudanças climáticas, saúde pública, orçamento público, dados abertos, uso do solo, racismo, gênero, dignidade humana. A mobilidade também é muito sobre relações humanas, e acaba sendo influenciada e influenciando essas relações, tendo grande peso na vida das pessoas nas cidades, e consequentemente na política.

Apresentação da Urban 95.

Para mim, foi novidade e chamou a atenção um olhar mais cuidadoso para as crianças e pessoas idosas. Além de pensar simplesmente em cidades para pessoas, iniciativas como a 8 80 Cities vão além e instigam a pensar em cidades que sejam agradáveis para pessoas de 8 e de 80 anos, e que consequentemente seriam agradáveis para toda a população. Já a Urban 95 questiona o que você faria diferente se pudesse vivenciar a cidade da altura de 95 cm (a altura média de uma criança de 3 anos). Teve até uma atividade prática onde utilizou-se uma espécie de periscópio para vermos as ruas nesta altura, e foram realizados alguns levantamentos de acordo com o novo Guia de Desenho de Ruas para Crianças, da NACTO.

No final da quarta feira, 26, foi anunciada a cidade vencedora do prêmio e que receberá o evento em 2020: Pune, na Índia. Após as falas finais, houve o encerramento oficial com uma animada banda de batucada subindo ao palco e fazendo a galera dançar. 

Na quinta – 27/06 – assim como no domingo, ainda teve outro evento aberto ao público geral, com palestras sobre integração dos novos serviços de mobilidade com o transporte público. Foi falado das diversas formas de integração dos ônibus com bicicletas em Fortaleza, de um sistema complementar de transporte sob demanda em Goiânia, e da regulamentação dos novos aplicativos de transporte em São Paulo.

Algumas das apresentações de atividades que presenciei estão nesta pasta online. Outras apresentações, assim como a programação completa, podem ser encontradas na página do evento, em mobilizesummit.org/agenda.

Tour de bicicleta passando pela Av. Beira Mar.

Passado o Mobilize Fortaleza, além do entusiasmo com os conhecimentos adquiridos ou revisitados, novos contatos feitos, e a renovação de energia por conhecer mais alguns bons exemplos de projetos e profissionais de mobilidade mundo afora, temos que aproveitar para repensar nossa atuação. Devemos continuar lutando por uma mobilidade melhor na nossa cidade, de olho nos temas e organizações que estão se juntando por melhores cidades, como mudanças climáticas, foco na infância e pessoas idosas, de onde podem surgir no futuro boas parcerias.